Sessões de Quarentena #01

Missing (1982), a institucionalização da barbárie

por Rafael Valles

Assisti ontem ao filme Missing – Desaparecido (1982), do cineasta grego (naturalizado francês) Costa Gavras. A intenção inicial de rever este filme depois de muito tempo tinha relação com o maestro Ricardo Aronovich, diretor de fotografia. A partir da bela live que assisti dele com Manuel Antin, queria rever o trabalho dele. Ainda lembro como me impactou quando assisti pela primeira vez esse filme, que conta a história de um pai norte-americano que vai ao Chile procurar o seu filho que está desaparecido, em meio ao contexto do golpe militar de 1973 que originou a ditadura comandada por Augusto Pinochet. A cena dos presos no estádio, as imagens que mostram uma Santiago sitiada pelo estado de exceção, a tensão sempre latente que o filme criava de que algo estava por acontecer.  

Ao rever o filme agora, as impressões que tive ganharam um sentido mais amplo, dentro do contexto de pandemia em que vivemos.  

Mesmo que o meu conhecimento sobre a ditadura chilena se restrinja a filmes, livros, depoimentos, sempre quis entender a dimensão do trauma, dos horrores vividos pelos chilenos não só pelo ocorrido no dia 11 de setembro de 1973, mas também pelo número de mortes em 17 anos de ditadura: oficialmente são 40.280. Quando se escutam os relatos de pessoas que sobreviveram a esse período, se percebe a crueldade e a perversidade da ditadura chilena, mas quando me deparo com esses números, me vem a imagem de que a quantidade de mortos praticamente lotaria as arquibancadas do Estádio Nacional, em Santiago.

E hoje, quando penso que o Brasil já possui 58 mil mortos em três meses pelo coronavírus – e que ultrapassaria a capacidade de público nas arquibancadas do Estádio Nacional -, isso também traz uma dimensão da tragédia silenciosa em que estamos vivendo. Claro que existem diferenças entre ambos contextos. Enquanto existia na ditadura chilena a repressão, a tortura, o toque de recolher, o medo de ser preso, vivemos hoje no Brasil uma situação que pode não alcançar o extremismo de uma ditadura militar, mas que também está sendo bastante virulenta: ao termos uma democracia bastante fragilizada, com claros sinais de censura, de violação dos direitos humanos e de crises institucionais que ferem diariamente as liberdades individuais, agora também enfrentamos mortes em massa causada por um vírus e por um governo que não possui um plano para combater a pandemia. Se isso já não fosse terrível o suficiente, também temos um presidente que incita as pessoas a saírem de casa para se exporem aos riscos da pandemia e, por consequência, ao risco de morte.

Uma semelhança que une ambos contextos é a indiferença pela vida. Seja através da tentativa em ocultar dados de mortos, do sentimento de insegurança gerado na sociedade, da falta de cidadania por parte da sociedade, das declarações que revelam a indiferença em pensar e cuidar ao próximo. Muito se fala hoje sobre o termo empatia porque seguimos numa luta de trincheiras contra o ódio e a intolerância.  

Em Missing, uma das cenas mais impactantes é justamente aquela em que os personagens Beth (Sissy Spacek) e Ed (Jack Lemmon) percorrem um depósito com pilhas de corpos de pessoas mortas. Corpos estirados sobre o chão, sobre a escada, pessoas que foram fuziladas. Outras cenas mostram corpos de pessoas mortas nas ruas, pessoas correndo para não serem presas ou assassinadas, além do contínuo som de sirenes e metralhadoras disparando.

No Brasil de 2020, a referência imagética que se tem hoje não é só da liberação das armas que Bolsonaro está flexibilizando e que ficou tão evidente na reunião ministerial do dia 22 de abril. Além de querer armar a população, a imagem de Bolsonaro parece estar cada vez mais relacionada aos abatedouros. “É nosso dever alertar a população de que ela foi liberada para ir ao abatedouro” – destacou Domingos Alves, do portal Covid-19 Brasil[1], no início de junho. Hoje essa expressão voltou a tona na notícia “Falas de Bolsonaro contra isolamento podem ter matado mais seus eleitores, aponta estudos”, publicada na Folha. “É como se, com seu discurso, Bolsonaro tivesse levado seus eleitores ao abatedouro”, afirma Ivan Filipe Fernandes, doutor em Ciência política pela USP[2].

Existe no filme Missing um olhar estupefato dos personagens Beth (Sissy Spacek) e Ed (Jack Lemmon) ao descobrirem a frieza com que se constrói a barbárie como política de Estado. Do espanto para o sentimento de descrença, Beth e Ed percebem que um Estado se move contra a sua própria sociedade e que as buscas por Charles Horman (filho de Ed e casado com Beth) por parte dos órgãos oficiais, são na verdade uma farsa. Quanto mais buscam a Charles, mais percebem a impossibilidade em encontrá-lo. Numa cena em que estão no saguão do hotel, Ed se concilia com Beth Horman porque, ao entender contra quem ela e o seu filho estavam lutando. Em meio a esse momento de conciliação, ela pergunta:    

Beth: “Acha que ele está morto?”

Ed: “Eu não sei… Não, não acho que esteja morto”.

Beth: “Mas não é o que realmente sente, não é?”

Ed desconversa.

Em setembro de 2019, Bolsonaro exaltou a ditadura chilena de Pinochet e atacou o pai da ex-presidente Michelle Bachelet, que foi torturado e morto pela ditadura que perdurou até 1990 no país[3]. Ao exaltar Pinochet, exaltou um governo que matou mais de 40 mil pessoas. Seja na repressão ou na omissão, aquele Chile de Pinochet e esse Brasil de Bolsonaro possuem em comum governos onde a sociedade não se sente amparada, segura, porque são comandos regidos pela pulsão de morte, pela indiferença em relação a vida e por buscarem ignorar aqueles que morreram em decorrência de uma ditadura militar e que agora morrem por uma pandemia.  


[1] https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/populacao-foi-liberada-para-ir-ao-abatedouro-diz-integrante-do-portal-covid-19-brasil-sobre-reducao-do-distanciamento-24459467

[2] https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/06/falas-de-bolsonaro-contra-isolamento-podem-ter-matado-mais-seus-eleitores-aponta-estudo.shtml

[3] https://revistaforum.com.br/noticias/bolsonaro-exalta-ditadura-de-pinochet-ao-falar-sobre-protestos-no-chile/

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