Sessões de Quarentena #03

Agnès Varda: imaginar, criar, ressignificar

por Rafael Valles

Neste final de semana voltei a assistir Visages, villages (2017), filme da cineasta Agnès Varda e do fotógrafo JR [1]. Trata-se não só de um dos mais belos filmes feitos pela cineasta franco-belga, como também o resultado de uma parceria muito acertada com Jean Réné.

Com fotografias gigantes expostas na fachada do Museu do Louvre, em eventos públicos como as Olimpíadas, passando por exposições em lugares abandonados, em situações ilegais (como a fronteira entre México e Estados Unidos), assim como realizador de projetos de formação artística, como o Projeto Casa Amarela, no Morro da Providência (Rio de Janeiro), JR construiu uma obra de forte impacto visual e intervenção urbana que já percorreu distintos lugares do mundo. Por sua vez, Agnès Varda é um nome referencial na história do cinema e da Nouvelle Vague, tendo realizados filmes como Cléo das 5 às 7 (1962), Os Panteras Negras (1968), Sem teto, nem lei (1985), Jane B. por Agnès V. (1988), Os catadores e eu (2000), como uma obra bastante eclética, que reúne filmes de ficção, documentários, filmes-ensaio, além de possuir uma trajetória como fotógrafa e ter realizado exposições e vídeo-instalações em museus.

            Visages, villages não é somente o encontro de dois artistas de diferentes gerações (Agnès tinha 88 anos e JR tinha 34 anos quando o filme foi feito), mas é sobretudo uma parceria de dois artistas que sempre buscaram um sentido expandido nas suas obras, onde o audiovisual se mescla com a fotografia, com as artes plásticas, com as intervenções urbanas, com os museus, com o cinema.  O resultado disso é possível conferir nesse belo filme, onde ambos percorrem os vilarejos franceses e saem a fotografar as pessoas desses lugares, a descobrir as suas histórias e a expor as fotografias nos lugares mais inusitados possíveis, como nos contêiners de um porto, na fachada das casas, na pedra de uma praia.      

            Dito isso, não proponho fazer aqui uma resenha ou crítica cinematográfica sobre o filme, mas comentar as impressões que tive ao revê-lo três anos depois da sua estreia nos cinemas. Trago aqui especificamente uma cena que me chamou a atenção na parte final do filme. Agnès e um funcionário de uma ferrovia contemplam uma imagem gigante que mostra os pés da realizadora e que está exposta num vagão de um trem de carga. Se a situação por si só já seria inusitada, o diálogo entre Agnès e o funcionário da ferrovia é muito revelador sobre o olhar da cineasta. Reproduzo aqui:

Ambos olham a imagem no vagão do trem e comentam:

Homem – São seus (pés)? São bonitos. E quem teve a ideia? 

Agnès – Ele (JR), não eu. Não me orgulho dos meus dedos, são pequenos demais. 

Homem – É verdade que eles parecem pequenos. Verdade. É verdade que parecem pequenos, mas… não sou contra. Fiquei curioso. Qual é o objetivo desses dedos do pé nos vagões. Tem um objetivo ou é… 

Agnès – O objetivo é… é o poder da imaginação. 

Homem – Certo. 

Agnès – Significa que nos damos o direito, JR e eu, de imaginar coisas e de perguntar às pessoas, “podemos usar nossa imaginação onde vocês vivem?”. Além disso, nossa ideia era de estar com gente que trabalha. É por isso que tiramos as fotos dos grupos. Há, ao mesmo tempo, um desejo de conviver com vocês e de pôr em prática nossas ideias, nossas maluquices. 

Homem – Claro. 

Agnès – Isso nos dá prazer, esperando também agradar os outros. 

Homem – O que me surpreende é que é algo original. É mais uma experiência. 

            Somente nesse pequeno fragmento do filme, é possível encontrar muitas questões que definem o olhar de Agnès. Quando ela fala que “o objetivo é o poder da imaginação”, também está falando sobre um ponto chave na sua obra. Os seus filmes sempre nos remete a escolhas narrativas, estéticas, reflexivas que potencializam o uso da imaginação, de soluções criativas. Agnès busca a fantasia, o artifício, a imaginação, escolhe o inusitado, surpreende o espectador. Sua obra não é realista num sentido estrito do termo. Mesmo os seus documentários procuram intervir no real com escolhas originais, onde não basta somente mostrar o real, mas a criação que emana desse real.

            Quando Agnès afirma que “isso nos dá prazer, esperando também agradar os outros”, ela também afirma um cinema que pensa o espectador, que o provoca não no sentido de um hermetismo que desafia codificações, mas de um efeito que produz um encantamento pelo sentido criativo e lúdico que possuem as suas escolhas narrativas e estéticas. A reação do funcionário da ferrovia é muito elucidativo sobre isso. Mesmo sem saber o objetivo de terem colocado uma fotografia gigante dos pés da cineasta no vagão de um trem, ele afirma que é algo que “surpreende, que é original, que é uma experiência”. O que ele fala e como ele fala revelam esse encantamento pelo inusitado.  

            Os filmes de Agnès nos convidam a entrar nesse mundo engenhoso, nos colocam como parte dessa construção. Não por acaso, Jean Luc Godard aparece neste filme da forma mais inusitada possível (sem spoilers aqui) e isso diz muito sobre as diferenças entre eles. Ambos construíram obras inventivas, provocadoras, referenciais, mas por caminhos diferentes. Godard provoca e te distancia. Agnès provoca e te abraça.

            Para não me estender mais, grande parte desse encantamento também parte do personagem Agnès Varda. Os seus filmes também nos convidam a construir sentimentos, afetos por ela. Sobretudo nos seus últimos filmes de cunho mais autobiográfico – As praias de Agnès (2008), Visages-Villages (2017), Agnès por Vardà (2019) -, Agnès traz a junção entre a alegria e a melancolia, entre a maluquice e a nostalgia, entre lembrar seres queridos que faleceram  e querer conhecer pessoas, viver novas experiências. Quando ela afirma que buscava com esse filme o “desejo de conviver com vocês e de pôr em prática nossas ideias, nossas maluquices”, também nos revela como o exercício de buscar ao outro sempre foi uma tônica na sua obra.

            Decidi rever esse filme por um motivo em especial: Agnès nos faz sorrir. É uma cineasta solar. Quanto mais nos revela a sua busca incessante por pessoas, por memórias, por experiências, mais ela nos incita a imaginar, criar, ressignificar. Agnès ressignificou em imagens e filmes o seu luto pela morte do cineasta e seu marido Jacques Demy (1931-1990). Agnès criou filmes como Os catadores e eu (2000), onde procura ressignificar objetos, alimentos, afetos, imagens. Se em Os catadores e eu, ela encontrou uma batata descartada pelos produtores agrícolas e se encantou pelo formato de um coração que ela possuía, aqui em Visages, villages, ela ressignificou essa mesma imagem da batata com o formato dos seus pés fotografados por JR.

            Sempre que assisto os seus filmes, o sorriso permanece latente porque a inventividade, a imaginação, “as maluquices” pulsam continuamente. Os seus filmes nos intimam a buscar, a inventar, ressignificar coisas. Em meio ao confinamento em que estamos, em meio as circunstâncias do distanciamento social, onde precisamos cada vez mais ficar em casa, a vida também nos está obrigando a sermos mais inventivos. A cada dia, precisamos encontrar novas formas de lidar com a casa, com os objetos, com os nossos sentimentos, com as pessoas que compartilham o mesmo teto que nós, para não cair no tédio, na tristeza de uma rotina onde os dias estão cada vez mais iguais e o futuro é incerto. Os seus filmes nos mostram a importância de incluirmos as inventividades nas nossas vidas, de encontrarmos um sentido lúdico nas pequenas atividades cotidianas (e que assim seja tanto agora, como depois do confinamento causado pela pandemia).

Trailer de Visages, villages (2017)


[1] Para saber mais sobre Agnès Varda: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/29/cultura/1553856699_702910.html

Para saber mais sobre JR:  https://gq.globo.com/Cultura/noticia/2019/03/meio-fotografo-meio-artista-plastico-jr-e-o-ativista-urbano-que-voce-precisa-conhecer.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/30/cultura/1509385421_593585.html

2 Comments

  1. Avatar de Desconhecido

    Maravilhoso e elucidativo o teu texto Rafa e por isso e mais por existires e nos chamares a atenção do que é minúsculo, talvez, faz parte de nosso cotidiano, quem sabe e não percebemos pois está na nossa humanidade, o que deveria ser o nosso jeito de ser.

    Curtir

    Responder

Deixe um comentário