O pacto de Adriana (Lissette Orozco, 2017): como encontrar as peças ocultas?
por Rafael Valles

A partir do início dos anos 2000, começaram a existir uma quantidade significativa de documentários latino-americanos em que filhas e filhos de pessoas desaparecidas/mortas ou exiladas durante as ditaduras militares buscaram realizar filmes como uma forma de entender as circunstâncias que determinaram o destino dos seus pais e mães. Filmes como Los Rubios (Albertina Carri, 2003), M (Nicolás Prividera, 2007), Os dias com ele (Maria Clara Escobar, 2013), Diário de uma busca (Flávia Castro, 2010), são obras que dialogam – em maior ou menor grau – com a questão da “pós-memória”[1], enquanto ser “a memória da geração seguinte a que padeceu ou protagonizou os acontecimentos (ou seja: a pós-memória seria a “memória” dos filhos sobre a memória dos seus pais) […] seria a reconstituição memorialística da memória de fatos recentes não vividos pelo sujeito que os reconstitui” (SARLO, 2007, p.91-93). São filmes contundentes, que expõem lacunas, vazios, questionamentos e o desejo em fazer da obra que produzem, um processo de busca para o entendimento desses contextos sócio-históricos.
O pacto de Adriana (Lissette Orozco, 2017) é um filme que pertence a esse contexto, mas também é um documentário que problematiza ainda mais a questão da memória e das lacunas causadas por uma ditadura militar. O que acontece, por exemplo, quando é revelado que uma pessoa que você admirou a vida inteira, pode ter sido responsável por cometer torturas e crimes durante um regime ditatorial? É o que ocorre com este documentário e com a realizadora chilena Lissette Orozco, que decidiu fazer um filme sobre a sua tia Adriana Rivas, a tia Chany, agente da DINA (Dirección de Inteligencia Nacional), a polícia política comandada por Manuel Contreras, pertencente ao regime do ditador chileno Augusto Pinochet.
Orozco decidiu seguir o seu instinto e fazer um filme que procurasse entender as circunstâncias que levaram a sua tia a ser presa em 2007, e as implicações que ocorreram quando ela conseguiu liberdade condicional e fugiu do país em 2011, durante o seu julgamento por ter sido cúmplice e responsável por torturas e assassinatos enquanto trabalhava para a DINA.
A realização do filme ocorre em distintos momentos:
– no período anterior a 2011, quando ela entrevistou a própria tia;
– no período posterior a 2011, quando a realizadora mantém contato a distância com a tia e diante da iminência de Adriana ser extraditada da Austrália, país onde ela vive após ter fugido do Chile.
Ao acompanhar a ampla repercussão que o caso tomou na sociedade e nos meios de comunicação chilenos, ao compreender as implicações que isso trouxe não só para a sua família, mas também para a história chilena e para si própria, Lissette Orozco constrói um filme onde as convicções começam a virar dúvidas, onde as certezas se desmoronam a cada nova revelação. Orozco comenta no filme que sempre viu a sua tia com fascínio, como um ídolo, como “a valente da família, a que me ensinou a dizer o que eu pensava, sem ter medo. A que me ensinou a ser eu mesma”. A mulher forte, independente, a “cereja do bolo” que causava admiração em toda a família, de pronto se desconstrói diante dos fatos e da busca de Orozco por saber quem é Adriana.
Um dos grandes méritos do filme são as indagações da realizadora. Orozco não cai na armadilha em defender posições, porque entende que o seu objetivo é montar as peças do quebra cabeças que implica não só a sua tia, mas a sua própria posição frente a esse contexto. A realizadora afirma que todas as famílias possuem os seus segredos e que a dela não seria diferente. No entanto, esses segredos familiares estão entrelaçados com a própria história chilena. “Mergulhei no passado da minha tia. E encontrei a história mais obscura do meu país. Aquela parte que minha família nunca me mostrou”, afirma a realizadora.
Justamente por não se fechar numa posição contrária ou a favor da sua tia, o conflito se acentua quando Adriana cobra da sobrinha que ela atue a seu favor. O pacto no qual se refere o titulo do filme acaba então adquirindo um duplo sentido: pode ser tanto o pacto que Adriana possui com a corporação pela qual fez parte na ditadura de Pinochet de não revelar qualquer ação pela qual está sendo julgada; e o pacto pelo qual Adriana procura estabelecer com sua sobrinha para ajudá-la a mostrar que é inocente através da realização do filme. E aí entra uma indagação feita por Lissette que é chave para o filme, para os seus personagens, para as situações que enfrenta: “A minha tia quer que eu faça esse filme, porque acredita que através dele a inocência dela poderá ser mostrada. Por que eu tenho que contar a sua verdade em vez dela enfrentar a justiça e dizer o que é verdade ou não?”.
Existe nos depoimentos de Adriana a impressão de que elaconstrói a si própria mais por suas peças ocultas do que pelo que se coloca em evidencia. Quanto mais se evidenciam posições, sentimentos, emoções, mais se parecem ocultar verdades. Vemos e ouvimos uma Adriana que não sabemos quem de fato é. Seria a pessoa que diz que é? Seria a pessoa que dizem que foi? Seria a torturadora que a mídia e pesquisadores afirmam ter sido? Seria nenhuma dessas possibilidades? Em meio a essa polifonia de posicionamentos, Orozco faz do seu filme uma busca para encontrar o seu próprio ponto de vista.
O que segue me impactando ao rever esse filme três anos depois é a coragem da realizadora em expor as suas intuições, as suas reflexões, a sua esfera íntima, para entender a sua própria condição como sobrinha de uma pessoa que foi julgada por crimes contra a humanidade. Existe nessa auto-exposição uma coragem, uma sensibilidade em compreender a si própria como alguém que precisou investigar, conhecer mais a fundo a história da sua própria família, para também entender a história do seu país. O filme de Lissette Orozco incentiva para que outras pessoas façam o mesmo. A própria sociedade chilena também está buscando enfrentar a sua história, prendendo ex-membros da polícia secreta de Pinochet[2].
É nesse sentido que também penso no momento em que estamos vivendo agora aqui no Brasil. A sociedade brasileira assumirá algum dia o desafio de enfrentar efetivamente os períodos mais sombrios da nossa história? Como já dizia Safatle, “quando você não acerta suas contas com a história, a história te assombra”[3]. Vivemos num país que ainda não confrontou os seus próprios traumas e que também por isso, hoje retrocede a passos largos. Quando será que iremos romper com esse pacto de silenciamento e desvelar as suas peças ocultas?
Para assistir o filme “O pacto de Adriana”, é só acessar a página do SESC Digital, no link: https://sesc.digital/conteudo/cinema-e-video/42876/cinema-emcasacomsesc/43945/o-pacto-de-adriana
Trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=LBOkSe676Po
[1] Para ler mais a respeito sobre o termo pós-memória, ler o artigo “Pós-memória, reconstituições”, da escritora argentina Beatriz Sarlo, que consta no livro “Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva (UFMG, 2007). Link: http://www.legh.cfh.ufsc.br/files/2015/04/SARLO-Beatriz.-Tempo-Passado.pdf
[2] https://www.dw.com/pt-br/chile-condena-22-ex-agentes-por-crimes-durante-a-ditadura-militar/a-50730621
[3] https://apublica.org/2018/10/quando-voce-nao-acerta-suas-contas-com-a-historia-a-historia-te-assombra/