por Rafael Valles.
Não me lembro exatamente o que fui fazer no Rio de Janeiro em 2011 e tampouco tenho a precisão de datas e lugares, porque a memória já começa a ficar refém das imprecisões que a passagem do tempo nos traz. Mas as referências que ainda guardo daquela tarde são pontuais e especiais. Aproveitei a viagem para realizar um antigo desejo: conhecer Eduardo Coutinho.
A justificativa para isso seria entregar a ele a minha dissertação de mestrado sobre a questão da performance no documentário brasileiro contemporâneo, no qual eu analisava, entre outros filmes, o seu Moscou (2009). Se ele iria ler ou não, já era uma outra questão. O que importava naquele momento era a oportunidade de trocar umas palavras com um dos maiores realizadores que o nosso cinema já teve.
Meses antes, cheguei a consultar Consuelo Lins por email para saber como poderia falar com ele. Consuelo me passou o contato do CECIP – Centro de Criação de Imagem Popular, localizado no centro da cidade. Ao ligar pra lá, uma primeira surpresa: foi o próprio Coutinho quem atendeu. Logo marcamos data e horário.
O que lembro desse primeiro momento do encontro foi quando entreguei para ele a minha dissertação. Lembro também do meu orgulho por fazer a entrega pessoalmente. E o contraste que veio logo em seguida. Coutinho não fez muito caso com as cento e poucas folhas impressas e encadernadas que me renderam alguns meses de trabalho e de escrita. Ele logo em seguida abriu uma gaveta e colocou a dissertação junto com tantos outros textos encadernados. Com um misto de surpresa e resignação, neste simples gesto entendi que a minha dissertação era apenas mais uma entre tantas que ele deveria receber continuamente de várias pessoas que analisaram a sua obra.
Só que o grande presente que recebi dele não passava por este tema, mas pelo que veio logo a seguir. Coutinho me informou que em alguns minutos viriam buscá-lo para um bate papo sobre o seu filme mais recente, Um dia na vida (2010). Ele me perguntou se eu gostaria de vir junto. Aceitei o convite como quem sentia que a tarde estava apenas começando e que tinha tudo para ser especial. A começar pela ida até o local, uma universidade localizada nos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro. Como as imprecisões da memória me impedem de recordar o nome da instituição e a região para onde fomos (até porque eu vinha do sul do país e mal conhecia o Rio de Janeiro), o que lembro foi que conversamos sobre Moscou, talvez o filme menos “coutiniano” da sua obra (junto com Um dia na vida). Lembro de como este filme resultava incomodo para Coutinho pelo tom que adotou sobre ele na nossa conversa, muito possivelmente por ser um documentário que saiu dos seus domínios narrativos e pela repercussão negativa que teve em situações como a crítica escrita por Eduardo Escorel (link: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/coutinho-nao-sabe-o-que-fazer/).
Ao chegarmos na universidade, ficamos no lado de fora da sala com o moderador do encontro, enquanto a projeção do filme terminava. O que lembro do evento devo aos registros que fiz com minha câmera daquela época (uma Sony Bloggie bastante limitada tecnicamente) e que compartilho aqui pela primeira vez (para quem quiser assistir é só acessar a imagem acima do texto ou aqui diretamente pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=ZreLoudW-gA).
Rever estes pouco mais de oito minutos com Coutinho falando me traz um sentimento de alegria. A começar pela possibilidade de reencontrar o seu humor ácido, o carisma tão peculiar que ele tinha com o seu jeito carrancudo e ao mesmo tempo, tão gracioso de ser. O registro que fiz perde um pouco da fala inicial de Coutinho, quando ele comenta sobre a presença dos estudantes adolescentes e os aplausos ao final da sessão para um filme nada convencional, difícil de ser assistido:
– … Porque se não viessem, não passavam de ano, é isso? (risadas gerais) A troco de que vocês estão aqui? Tudo garotos, menor de idade… o que é proibido. 16, 18 anos… Quem são vocês, que querem da vida?… não sei nada. Vocês ficam até o final e batem palma, o que é uma loucura. (risadas gerais) Além da sala ser maravilhosa, porque ela é grande, cabe cem pessoas, tem uma tela grande. Visto em casa, na televisão, é um filme insuportável.
Coutinho se refere a Um dia na vida, filme que fez todo em cima de fragmentos de programas televisivos que foram exibidos ao longo de um dia, nos mais variados canais de sinal aberto da televisão brasileira. Considerado por ele próprio como seu “filme clandestino” (porque não podia ser exibido comercialmente em salas de cinema, pelo fato de não ter adquirido os direitos das imagens), Coutinho naquela época participava de atividades como esta de levar o filme para ser visto e debatido em eventos sem fins lucrativos.
Num outro momento que registrei, Coutinho comenta o que seria a proposta original do filme, que não chegou a ser realizada. É muito revelador perceber neste fragmento do vídeo como o surgimento das suas ideias para um novo documentário sempre passavam pela construção de um dispositivo narrativo, pelo estabelecimento das regras do jogo (e também pelo desejo em assumir uma proposta que fosse diferente ao seu projeto anterior).
– Eu queria fazer um filme que ninguém dissesse um texto sobre si próprio. Um filme que tirasse de jornal, de livros, interpretado por atores ou não atores, mas que ninguém falasse de seu nome, um filme de citações, adaptações, plágios, pilhagens. (…) E aí o João (Moreira Salles) falou, “por que não televisão?”. Daí eu falei “não, porque não passa”. Daí ele falou “poderia gravar, só para experimentar”. Como era barato ligar o dispositivo com todas as emissoras de TV aberta, a regra era gravar aquilo que foi feito para a televisão. Aí eu tive grande surpresa sobre aquela coisa espantosa (…) era a primeira vez que eu vi esse troço (obs.: Coutinho se refere a programação televisiva). Era um dia comum, sem futebol, sem ser sábado e domingo, a regra era essa, um dia simples, comum. (…) O fato é que se tinha oito monitores, se escolhia, tinham programas que eram preferenciais. Você dizia, “esse programa tem que entrar”. Por exemplo, não posso perder o Chaves.
Os registros em vídeo que fiz são tudo o que tenho daquele dia. Não tenho fotos ou selfies com Coutinho, o que em parte lamento até hoje. Mas cada vez que lembro esta ausência, trato de lembrar que tive algo maior do que isso. O gesto que Coutinho fez ao me convidar para ir ao bate papo talvez até nem tenha significado grande coisa para ele, mas para mim significou muito. E isso também me fez pensar sobre como Coutinho era capaz de produzir encantamento nos personagens dos seus filmes a partir destes “pequenos gestos” que os conduziam para uma experiência que ia muito além do cotidiano, que os deslocava para viverem momentos singulares nas suas vidas. No documentário Banquete Coutinho (Josafá Veloso, 2019), ele afirma que “na rotina nada é mágico. Extraordinário é aquele momento do encontro, não do cotidiano”. Numa única tarde, Coutinho me fez entender muito mais sobre ele e a sua obra do que consegui expressar na minha dissertação de mestrado.
Obs: para quem quiser assistir ao filme Um dia na vida, é só acessar o link https://www.youtube.com/watch?v=v3Yw6Sa4GYM