Ayrton Senna e algumas memórias daquele trágico dia

por Rafael Valles

Hoje, há exatos trinta anos morria Ayrton Senna. Há trinta anos se construía um antes e um depois para a Fórmula 1, para os amantes do automobilismo, para a sociedade brasileira e também para mim. Ainda tenho presente momentos daquela manhã em 1994, porque estava assistindo a corrida pela televisão. Com 11 anos de idade e assistindo a Fórmula 1 numa época que foi inesquecível para os fãs brasileiros, nos meus pensamentos não existia outra possibilidade que não fosse a vitória de Senna em Ímola. Aquela era para ser a corrida da recuperação, a corrida para mostrar a Michael Schumacher quem era o tricampeão do mundo.

É por isso que ainda hoje me vem na memória a minha primeira reação ao fatídico acidente naquela manhã em 1994. Ao ver Senna bater no muro, ainda me lembro a situação insólita em ter me irritado, num primeiro momento. Na cabeça de um guri que nada sabia sobre tecnologia e aerodinâmica, só me vinha o imediatismo do resultado, de que com o terceiro abandono em três corridas, começaria a perder o campeonato. Sem ter noção da gravidade daquele momento, pela primeira vez encontrei o limite entre o herói e o humano. Já acostumado a acidentes contínuos nas corridas, pensei que Senna sairia do cockpit irritado com alguma falha do carro ou algum erro seu na tomada da curva. Passaram poucos segundos para perceber que a minha reação tinha sido idiota e inconsequente. Quanto mais tempo ele seguia no carro, mais era possível perceber que algo errado estava acontecendo. Ao ver ele sendo retirado da Williams, aí caiu a ficha de que a situação era muito grave.

A minha segunda memória daquele dia também ainda é muito presente. Me escondi na sala de casa e sozinho, comecei a rezar. Para um garoto acostumado a torcer por vitórias, a minha torcida era para que mesmo que ele não pudesse voltar a correr, que pelo menos pudesse sobreviver. Mesmo com o impacto da morte de Roland Ratzenberger um dia antes e com o terrível acidente de Rubens Barrichello na sexta feira (que soube ao chegar da escola, quando meus pais avisaram, num período que sequer existia a internet), também percebi a diferença entre perder um piloto e perder a Senna. Foi ele quem me fez madrugar para assisti-lo ganhar o tricampeonato no Japão em 1991. Era ele quem me fazia acordar cedo todas as manhãs de domingo para não perder a largada, sempre às 9h em ponto. E tudo isso eu assistia no meu quarto, no meu sofá-cama. Num certo sentido, Senna fazia parte daquele quarto, ele conduzia as minhas emoções, as minhas expectativas e fazia os domingos serem mais felizes. Após a sua morte, segui assistindo a Fórmula 1 (como sigo até hoje), mas a minha torcida se voltou para um outro foco: para os brasileiros e para as equipes do fundo do pelotão. Já não torcia mais por quem pudesse vencer, mas por quem pudesse trazer alguma história surpreendente em cada corrida. E foi aí que comecei a torcer não tanto por pilotos, mas por equipes como Tyrrell, Lotus, Minardi, Ligier, Simtek. Hoje penso que, talvez, isso ocorreu como uma reação inconsciente de que para mim só existiria um vencedor e que ele era insubstituível.    

Como a memória é seletiva, são esses os dois momentos que guardo daquele dia. Muito provavelmente algo parecido ao que ocorreu para milhares de brasileiros. Sequer me lembro como reagi a morte dele porque acredito que em certos momentos também surgem bloqueios emocionais, como uma auto defesa para tentar atenuar a dor intensa. Na tarde daquele mesmo dia meu pai me levou para jogar na escolinha de futebol do Juventude, por isso vim a saber a noticia tempos depois de ter sido anunciada. Mas sequer me lembro quem me disse ou como fiquei sabendo.

Duas semanas atrás retornei a essas memórias ao apresentar e analisar o documentário Senna (Asif Kapadia, 2011), numa aula sobre montagem e estrutura dramática. Nenhum dos alunos sabia quem era Ayrton Senna, o que num certo sentido foi um choque para mim (mas que fazia sentido, afinal, já se passaram 30 anos e os alunos também eram argentinos, com uma relação muito diferente com o automobilismo, se comparado aos brasileiros). Ao final da aula, a reação que tiveram foi de admiração, o filme gerou boas reflexões. E, por um momento, senti uma inveja positiva deles, que assistiam aquelas imagens pela primeira vez. As mesmas imagens que estive acostumado a assistir quando guri, na expectativa por ver o “Ayrton Senna do Brasil” fazendo história.

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