
Por Rafael Valles
Afirmar que a história do cinema brasileiro passa pelo olhar criterioso de Eduardo Escorel não é nenhum exagero. Clássicos do Cinema Novo como “São Bernardo” (Leon Hirszman, 1972), “Terra em transe” (Glauber Rocha, 1968), Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969), assim como filmes fundamentais do cinema documentário como “Cabra Marcado para Morrer” (Eduardo Coutinho, 1984) e “Santiago” (Joao Moreira Salles, 2006), são uma prova da excelência do seu trabalho como montador.
Mas a sua carreira não se restringe a montagem cinematográfica. Colunista de cinema na Revista Piauí, crítico e docente com importante trajetória acadêmica, Escorel também realizou vinte filmes como diretor, com destaque para os documentários “Bethânia bem de perto” (co-dirigido com Júlio Bressane, 1966), “Vocação do poder” (co-dirigido com José Joffily, 2005), “Deixa que Eu Falo” (2007), “Imagens do Estado Novo 1937-45” (este documentário finalizado em 2016 conta com um extenso e precioso resgate de imagens de arquivo e uma importante análise sobre aquele período da história do país).
Com “Antonio Candido, anotações finais” (2024), o desafio que tocou a Escorel foi o de retratar um dos grandes intelectuais que o Brasil já teve, autor de obras como “Literatura e sociedade” (1995), “Formação da literatura brasileira: Momentos decisivos” (2006), entre outros. Com uma narrativa bastante intimista, o cineasta não procurou analisar o legado de Antonio Candido ou fazer um filme biográfico, mas um retrato dos anos finais do sociólogo e crítico literário, a partir dos seus cadernos pessoais. O resultado é um belo filme que nos transporta para as reflexões (e inquietações) que tanto percorrem o cotidiano nos seus anos finais de vida (Antonio Candido veio a falecer em 12 de maio de 2017).
Logo aqui abaixo, reproduzo uma entrevista que fiz por email com Escorel:
Rafael Valles – O que te motivou a fazer um filme sobre os cadernos de anotações do Antonio Candido? Tu escolheu abordar no filme somente os cadernos escritos durante os anos de 2015 a 2017, sendo que ele escrevia seus diários íntimos desde os quinze anos de idade. Por que a escolha desse período? Chegaste a pensar em trabalhar com um período mais amplo dos cadernos?
Eduardo Escorel – Parti da suposição evidente de que as anotações deveriam ser valiosas por Antonio Candido ter sido quem foi. Era óbvio que precisaria limitar com quantos cadernos iria trabalhar, pois seria inviável fazer um documentário sobre o conjunto dos 74 cadernos remanescentes do total de 90 numerados, além de alguns temáticos, que Antonio Candido completou. Pensei, então, em transpor os dois últimos, número 89 e 90 – a hipótese foi que seriam especialmente interessantes por terem sido escritos durante o ano e meio final da vida. Nessa escolha, não influiu o fato de se referirem aos eventos políticos notórios do período que vai do final de 2015 até abril de 2017.
– Qual foi a tua primeira impressão ao ler esses cadernos? Encontraste um Antonio Candido familiar ou desconhecido?
• À medida que fui digitando o manuscrito, a minha hipótese foi sendo confirmada – havia ali reflexões, comentários, lembranças etc. preciosas. Fazer um documentário a partir dessas anotações pareceu fazer sentido, pois ofereceria a rara oportunidade de acesso aos pensamentos finais de um homem incomum, capaz diante da iminência da morte de refletir sobre uma ampla variedade de temas, uns inspirados por notícias de jornal, outros por preferências literárias e musicais, lembranças da infância ou a crise política do país etc.
– Como foi o processo de montagem do filme? A escolha em não fazer entrevistas com familiares e amigos (decisão muito acertada, por sinal), acabou tornando o trabalho mais desafiador no uso das imagens de arquivos e na edição do filme?
• Um desafio considerável foi encontrar na montagem a justa medida da estrutura narrativa fragmentada, resultante da decisão de seguir a ordem cronológica e preservar a variedade de assuntos das anotações. Havia, desde o início, a decisão de não dar voz a terceiros na forma de entrevistas. O objetivo era fazer um filme sobre Antonio Candido narrado por ele mesmo. E foi ao ler “O pranto dos livros”, breve texto escrito por ele, em 1997, quando estava prestes a fazer 79 anos, que encontrei a maneira de tornar essa opção possível – recorrer à ficção e Antonio Candido ser o narrador após ter morrido.
A montagem, feita em parceria com Laís Lifschitz, assim como a pesquisa no acervo fotográfico de Antonio Candido e Gilda, além de a pesquisa iconográfica em acervos brasileiros e estrangeiros, foi feita por nós, à distância, durante a pandemia – trabalho árduo e demorado, mas que nos ajudou a atravessar aquele período, buscando imagens que, na medida do possível, não fossem meras ilustrações do texto.
– O quanto ter montado “Santiago”, de João Moreira Salles ou outros trabalhos que tu trabalhou ou assistiu previamente serviram de referência para o processo de elaboração deste filme?
• Ter montado Santiago (2006) com Lívia Serpa foi um aprendizado importante para mim e pode ter influído em filmes que dirigi a seguir. Em especial, Deixa que eu falo (2007) que, como o título procura indicar, é um documentário narrado pelo próprio protagonista – Leon Hirszman (1937-1987) – sem entrevistas de terceiros. Em retrospecto, parece-me haver certa relação entre a forma narrativa de Deixa que eu falo e a de Antonio Candido, Anotações Finais.
– Gostaria que tu pudesses comentar um pouco sobre o processo das gravações com o ator Matheus Nachtergaele, pois a narração é também um dos pontos altos do filme, tanto na construção do tom como do ritmo.
• A narração é crucial em documentários de modo geral, mas ainda mais em Antonio Candido, Anotações Finais que é narrado do início ao fim, com poucas e pequenas pausas. Era essencial, portanto, ter o tom de voz e a cadência adequados. Durante a montagem, à procura de imagens, revi Onde a Terra Acaba (2002), de Sérgio Machado. Não me lembrava quem era o narrador do filme sobre Mário Peixoto. Ao ouvir a primeira frase gravada, porém, tive certeza de que aquela voz, que constatei ser de Matheus Nachtergaele, era perfeita para narrar Antonio Candido, Anotações Finais. E assim foi. Ele acertou o tom e o ritmo, sem maiores complicações, em apenas duas sessões de cerca de duas horas cada uma. Na montagem, micro ajustes foram feitos para harmonizar a cadência da voz com as pausas da música e as mudanças de plano.
– Existe nas escritas de Antonio Candido um tom muito pessoal que por vezes mostra um estado de luto permanente em relação a sua esposa Gilda de Mello e Souza, falecida em 2005. O quanto foi ou não difícil trazer alguns temas mais íntimos do personagem ao filme?
• Houve o cuidado de respeitar um limite quanto a questões pessoais e políticas, além do qual se considerou que o documentário estaria invadindo a privacidade de Antonio Candido.
– O filme enfatiza muito como Antonio Candido acompanhava cotidianamente os terríveis acontecimentos no cenário político brasileiro naquele período de 2015 a 2017, mesmo já retirado da vida pública. Sua trajetória como sociólogo, crítico literário e professor universitário também segue sendo uma referência para o meio intelectual brasileiro. Na tua opinião, o quanto faz falta para o Brasil de hoje pessoas como Antonio Candido?
• Creio que o filme deixa patente, entre outras coisas, a alta qualidade humana de Antonio Candido, traço tão difícil de encontrar no Brasil deste nosso tempo.
Nota Rafael Valles – Para quem quiser ler mais sobre o filme, também escrevi a respeito no link https://aterraeredonda.com.br/antonio-candido-anotacoes-finais-2/