Sessões de Quarentena #02

Roma (Adolfo Aristarain, 2004): quando os filmes nos olham

por Rafael Valles 

Existem filmes que são muito mais que filmes. São companheiros de vida. São filmes que a cada vez que voltamos a assistir em distintos momentos das nossas vidas, eles estão ali novamente para mexer com as nossas emoções, sensações. São filmes que nos olham, nos observam, nos questionam. E diante disso, lá pela sexta vez em que assistimos a esses filmes, o prazer está em lembrar o diálogo a ser dito antes que o personagem diga, a se emocionar sempre naquele ponto em que o filme não falha, a reencontrar aqueles personagens e viver com eles mais uma vez essa jornada que já se sabe como vai terminar. Ou não. Voltar a assistir um filme também reserva espaço para surpresas.     

            Quando penso nesses filmes que nos acompanham ao longo da vida, também penso sobre o frescor da primeira cruzada de olhares entre o espectador e a obra. E aí entra não só o filme em si, mas onde você assistiu, com quem você assistiu, o momento de vida que você enfrentava enquanto assistia, os instantes após a sessão que muitas vezes nos deixam maravilhados ou desorientados.

            Comento isso porque alguns dos filmes do cineasta argentino Adolfo Aristarain me trouxeram essas sensações. Ao assistir pela primeira vez Tiempo de revancha (1981), Los últimos dias de la víctima (1982), Un lugar en el mundo (1992), comecei a conhecer e admirar o cinema argentino, comecei a entender obras que conseguiam de forma muito singular unir o autoral a um apelo comercial. Com o passar dos anos, a cada vez que revejo esses filmes, a sensação que me traz é de admiração ao domínio da técnica cinematográfica que Aristarain possui, resultado também da sua admiração pelo cinema norte-americano clássico (John Ford, Howard Hawks) e de muitos anos trabalhando como assistente de direção de realizadores como Mario Camus (La leyenda del alcalde de Zalamea, 1973); Sergio Leone (Era uma Vez no Oeste, 1968); Daniel Tinayre (La Mary, 1974), entre outros.

            Por outro lado, gosto muito da segunda parte da sua trajetória como realizador, através do ponto de giro que ocorreu com o filme Un lugar en el mundo (1992). Com o passar dos anos, Aristarain foi deixando os filmes de ação, os policiais, para se dedicar a filmes mais intimistas, reflexivos, onde a palavra e a questão dos conflitos familiares assumem maior protagonismo.  Em Martin (Hache) (1997), Lugares comunes (2002) e Roma (2004), Aristarain potencializa as ações nos diálogos, na construção de personagens que se deparam com os seus próprios dilemas existenciais e na relação que possuem com o contexto sócio-histórico em que vivem (assistir Lugares Comunes, por exemplo, é como voltar a viver o contexto relacionado ao corralito argentino em 2001). Nessas obras, os personagens se debatem sobre os caminhos tomados na vida, seja através das escolhas que assumem ou das fissuras que constroem diante disso. Sempre me encantou assistir como os seus personagens conseguem transitar com fluidez desde a contenção dos gestos até as discussões mais acaloradas.     

            Roma é, até o momento (e infelizmente), o último filme de Aristarain. Lembro que assisti este filme pela primeira vez numa sala do extinto Espacio INCAA Cinema Tita Merelo, na rua Suipacha (centro de Buenos Aires), num dia de semana pela tarde, no ano de 2005. Também me lembro que só poderia estar ali naquela sessão porque resolvi pedir aos meus pais que desistíssemos de investir na cerimônia e festa de formatura da minha colação de grau no curso de jornalismo, para ter a oportunidade de viajar pela primeira vez para Buenos Aires (uma das escolhas mais acertadas que tive, já que um ano depois voltaria a Bs As para viver por quatro anos, para estudar e fazer cinema).

            Roma conta a história de Joaquin Goñes (José Sacristán), um escritor argentino que vive faz muitos anos em território espanhol e que decide escrever uma autobiografia, onde pretende rememorar sobre o seu período de infância e juventude. Ao repassar as suas memórias para Manuel Cueto (Juan Diego Botto) – um jovem jornalista contratado pela editora que será responsável por transpor o material original para o computador -, vamos também descobrindo como o personagem escritor foi construindo a sua trajetória através dos acontecimentos que relata e que estão relacionados aos contexto dos anos cinquenta até o período pré-ditadura militar no início dos anos setenta, em Buenos Aires.

            Eis aí que surge o personagem título do filme. Roma (Susú Pecoraro) é a mãe do escritor Joaquin, é a personagem que surge de forma afetuosa nas rememorações da autobiografia do protagonista, é o lampejo de luz em meio a vida atribulada que o escritor assumiu quando foi viver na Espanha. É a mãe que precisou criar sozinha o filho único, diante da morte prematura do marido. É a mãe rebelde, que não se encaixa nas normas familiares da época e concede todas as liberdades para o filho poder descobrir o seu próprio rumo na vida. É a mãe confidente, que escuta os fracassos amorosos do filho e sugere caminhos para que ele não sofra. É a mãe generosa, que se sacrifica para que o filho possa dar o salto na carreira.

            Roma é um personagem que emerge pela perspectiva do filho. Escrever a sua biografia acaba revelando o contraste entre um Joaquin composto pelas frustrações da vida adulta, pela decisão em omitir partes da sua biografia na obra, em relação a imagem idealizada e harmônica que possui da mãe, e as vivências que compartilharam quando ainda era jovem. Existe tanto nesse filme como em “Lugares comunes” – o penúltimo filme de Aristarain até esse momento – um tom entre a melancolia e a nostalgia frente a constatação da passagem do tempo. Olhar para trás, olhar para Roma, é para Joaquin a única questão que vale a pena recordar desse passado.    

            Uma das cenas mais belas do filme ocorre quando Roma – professora de piano – está tocando o instrumento musical e o filho chega em casa[1]. Ao terminar de tocar, ela pergunta ao filho se ele ainda tem vontade de viajar. Ele afirma que sim e o que vem depois é um lindo monólogo da mãe, onde reproduzo aqui um pequeno fragmento. 

  • “Quiero que sepas que yo nunca perdí la confianza en vos. No porque sea tu madre. Porque te conozco muy bien. Porque sé que soy muy capaz y que vas a salir adelante. Te equivocaste mucho, como todo el mundo, nada más. Tenés que perder miedo al fracaso y empezar a vivir. No haga las cosas por mí. Ni te sientas mal porque no haces lo que se supone que espero de vos. Yo espero que seas feliz. Que hagas lo que te guste. Que te sepas defender en la vida. Que el mundo no te destruya”.  

            Em todas as vezes em que assisto esta cena, me emociono. Me emociono pela maravilhosa atuação da atriz Susú Pecoraro ao interpretar Roma, pelo seu suspiro inicial, pela emoção e verdade que coloca no personagem. Me emociono pela sensibilidade do roteiro e da direção de Aristarain que traz uma nobreza a esta cena que poderia cair facilmente num melodrama mal resolvido se estivesse nas mãos de outro realizador que não compreendesse o tom adequado. Me emociono por perceber que quase vinte anos depois, essa mesma cena ressoa em mim aquela mesma emoção inicial que tive ao assistir pela primeira vez. São nesses momentos que os filmes nos olham, nos compreendem, nos projetam um espelho sobre as nossas próprias emoções.  

            Ao rever esse filme, também me emociono ao lembrar da generosidade dos meus pais frente as minhas escolhas, assim como todos os esforços que fizeram para contribuir na realização dos meus projetos de vida. Lembro daquele momento em que assisti esta cena pela primeira vez em Buenos Aires e que a minha decisão em fazer cinema começou a partir de momentos como este.

            E quando revejo hoje esse filme num contexto de pandemia, penso a diferença que faz quando uma relação (seja ela familiar, amorosa, de amizade) é pautada pela generosidade, pelo ato de pensar em relação ao outro, de realizar ações que nos preenchem quando buscamos nos doar ao outro. Em Roma existe uma nobreza nesses sentimentos, um amor incondicional, que é generoso porque não cobra o mesmo retorno da outra parte.

            Agora que estamos num mundo cada vez mais individualista, com um vírus que emergiu justamente nos questionando sobre como pensamos e cuidamos ao outro, rever esse filme reafirma para mim a sua vigência não só narrativa, como temática. Ficar em quarentena, sair de máscara na rua, evitar o contato com outra pessoa não é mais só um ato de proteção pessoal, mas também é um gesto que pensa o outro, que defende o outro do contágio. É também um ato que contribui para não sobrecarregar hospitais, evitar que pessoas morram em UTIs. Estamos num contexto onde a generosidade é fundamental, proteger os nossos pais, os nossos avós para não saírem de casa e não se exporem aos riscos da pandemia é fundamental.

            Se em outras vezes assisti Roma pensando no que os meus pais já fizeram por mim e como projetei tudo isso no amor incondicional de Roma pelo seu filho, agora revejo esse filme em julho de 2020 e reflito sobre como nós filhos podemos e devemos fazer algo pelos nossos pais e avós.

Links:

Adolfo Aristarain comenta sobre a sua trajetória cinematográfica: https://www.youtube.com/watch?v=T2X-4I66Yv4


[1] Um fragmento da cena disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RmVUF0MuATI&t=47s

2 Comments

  1. Avatar de Desconhecido

    Que homenagem ao diretor e ao cinema! Tenho estas sensações por outros filmes… mas as emoções são as mesmas. Eu vi “Jonas que terá 25 anos no ano 2000” 16 vezes! Embora me tenha me parecido datado, algumas cenas me tocaram profundamente, quando revi. É uma mágica, não tem fórmula.

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