O sorriso de “Eduardo e Mônica”

A começar pelo título do filme, “Eduardo e Mônica” já anunciam dois fortes motivos para muitas pessoas irem aos cinemas: a evocação que a música composta por Renato Russo proporciona para a realização deste longa e aquele universo nostálgico que sempre traz suspiros quando se pensa nos anos 80. A julgar pelo sucesso de bilheteria (já arrecadou R$1,55 milhão entre 27-30/01), o filme não deve decepcionar a quem busca essas chamadas. Estão ali as referências da canção a Manuel Bandeira e a Nouvelle Vague, ao jogo de futebol de botão, o filme também acrescenta a esse imaginário as chamadas telefônicas pelo orelhão… Mas mesmo para quem não é muito fã da Legião Urbana (eu sequer conhecia essa canção¹) ou dos anos 80, o filme consegue ir além. Não é somente um convite ao prazer por um tempo distante, mas também é uma chamada para o exercício constante do distanciamento.

Neste filme dirigido por René Sampaio e interpretado com muita delicadeza e sintonia por Alice Braga e Gabriel Leone, nos deparamos não somente com um casal improvável, diferente em tudo, mas também com o encontro de um terceiro personagem que vai sendo pontuado ao longo da narrativa: o sorriso.

Existe no personagem de Eduardo aquele sorriso juvenil, de estar se deparando com um caminho de descobrimentos que os 16 anos de idade lhe proporcionam. Com aparelho nos dentes, com os carrinhos e o pôster da Malu Mader decorando o quarto, o filme ressalta essa doce ingenuidade da adolescência, por mais que também pontue certos acontecimentos que forçaram a construção da sua personalidade.

Já em Mônica, o sorriso surge por outros caminhos. Alguns anos mais velha que Eduardo, ela já se depara com as vivências típicas da vida adulta. No seu olhar, existe não somente um sentimento de perda, mas também a consciência pelo mundo que enfrenta, pelos desafios na busca por se afirmar existencialmente (e profissionalmente). Nesse caminho mais árido, ela então se depara com Eduardo, e assim descobrimos um sorriso mais maduro, mais terno, como quem olha com distância por um tempo já vivido, mas que também se nutre dessa inocência do outro.

Justamente por frisar o sorriso, o filme também pontua muito bem a falta dele.  Momentos como a ceia de natal com o avô de Eduardo revelam um contexto sócio-político do país, com fraturas que ainda hoje persistem. O filme consegue ter a sutileza em estabelecer bem algumas relações com o país atual, num contexto em que o que menos conseguimos hoje em dia é sorrir.    

Um dos méritos de Sampaio foi ter construído um filme solar, uma narrativa que dá espaço e tempo aos sorrisos dos personagens. Em tempos atuais tão pautados por acirramentos nos debates virtuais, em tempos que somos desgovernados por pessoas mal intencionadas que fazem continuamente piadas de mau gosto, é revigorante ver um filme que entende a importância do encantamento pelo outro. Com a sutileza dos gestos, dos diálogos, do uso das luzes, é um filme que nos traz a oportunidade para voltar a sorrir. Não por acaso, uma das cenas mais simbólicas disso é quando Eduardo e Mônica fazem um jogo de luzes e sombras em frente a fachada do Congresso Nacional. Mesmo diante de um lugar que hoje nos traz tantas derrotas, o filme mostra que ainda é possível encontrar um olhar que nos distancie dessas tristezas. O cinema ainda possui esse poder de encantamento.

¹ Uma observação: Ou, pelo menos, eu imaginava não conhecer essa canção, até receber os comentários de amigos leitores que me convenceram ser impossível não conhecer “Eduardo e Mônica”, já que ela tocava continuamente nas emissoras de rádio, entre os anos 80-90. Minha memória não alcança, possivelmente eu tenha escutado a canção naqueles tempos, mas como nunca fui um fã da Legião Urbana (embora admire Renato Russo e o legado da banda), não guardo lembrança suficiente a respeito dessa canção.    

2 Comments

  1. Avatar de Desconhecido

    Rafael, naquela época da música eu sabia a letra de cor e a cantava a altos brados! Sim, nos anos 1980, celebrávamos tudo e com muito amor! Sim, verei o filme e com o olhar tão terno, quanto o do teu texto que me trouxe muitas lembranças.
    Beijos e saudades dos nossos papos!

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    1. Avatar de Desconhecido

      Pois, a Legião marcou toda uma época e uma geração, só imagino como deve ter sido marcante pra ti viver aqueles tempos (eu como ainda era uma criança, tenho poucas lembranças dos anos 80). Vale muito a pena assistir o filme, seja agora no cinema ou depois no streaming. Vai trazer bons fluidos porque é um filme positivo, contrasta muito com o que vivemos hoje. Valleu pelo comentário. Mais adiante seguiremos os nossos papos, com certeza. Grande abraço

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