Breno Ruschel, amigos para sempre.

por Rafael Valles

Quando penso no Breno (1937-2026), penso na beleza do acaso, no poder improvável das rotas que se cruzaram e que por um detalhe poderiam sequer ter acontecido.

Conheci ele em 2000, no último ano do ensino médio (na época, segundo grau), quando o saudoso grupo do qual eu participava (o Grupo de Pesquisa em Ciências Sociais do Colégio La Salle Dores, capitaneado pela nossa queridona professora de História e hoje grande amiga Simone Paixão), estava em pleno processo de criação do documentário “Almarquitetoreconstituipoa (meu primeiro trabalho audiovisual). Precisávamos de um ator para fazer a narração final do filme, alguém que desse aquele toque especial sobre o tema que tanto nos mobilizava naquele momento: os patrimônios históricos abandonados de Porto Alegre. Sem saber quem poderia ser este ator, fui até a Casa de Cultura Mário Quintana buscar nomes que poderiam ser recomendados. Encontrei por lá o ator Mauro Soares, que possivelmente naquele período estava em algum cargo do estado ou do município, motivo pelo qual cheguei até ele. Mauro acabou indicando dois nomes: Luiz Carlos Magalhães e Breno Ruschel.

Ao entrar em contato com o Breno, tive um primeiro impacto. Quem o conheceu, lembra muito bem que ele tinha essa particularidade de sempre atender uma chamada telefônica com um “sim” antes de um “olá” ou “bom dia”.  Esse “sim” e o que seguiu daquela chamada veio com um tom de voz grave, imponente, e ao mesmo tempo, acolhedor, caloroso, natural, perfeito para o que buscávamos (não por acaso um dos seus grandes sonhos era trabalhar como locutor de rádio).

Breno se mostrou agradecido, receptivo, mas por questões que não recordo com precisão, não foi possível contar com ele para recitar o poema “No tempo da flor”, do poeta Augusto Meyer. O filme perdeu a possibilidade de contar com a sua voz, com a sua emoção, mas algo foi semeado naquele momento. Ao longo dos meses, mantive contato, o convidei para assistir a apresentação de uma peça de teatro que fizemos na escola, ao lançamento do filme na Casa de Cultura Mário Quintana… porém, nada dele. Nesse meio tempo, mais chamadas telefônicas e mais conversas sobre o que de fato nos conectou profundamente: o cinema.

Recém ingressando na faculdade de jornalismo no ano seguinte, lembro de um dia ligar pra ele e pedir que me comentasse sobre alguns filmes e cineastas. Para desespero da minha mãe com a conta telefônica, ficamos mais de uma hora no telefone falando sobre diretores como Theo Angelopoulos, Andrei Tarkovski, Ingmar Bergman, todos nomes que naquele momento eram novidade para mim, mas que já faziam parte do seu repertório há muito tempo.

Quando por fim nos encontramos pela primeira vez, as referências prosseguiam, as conversas fluíam, as afinidades se encontravam.  Não é exagero dizer que grande parte da minha formação em cinema e teatro vieram desses encontros, das nossas idas ao cinema que se tornaram um hábito, das idas posteriores ao Bar do Beto, ao Bauru Country, a Torre de Pizza, para seguir analisando cada novo filme visto no Guión, no Unibanco Arteplex, na PF. Gastal, no Santander, na Cinemateca Paulo Amorim. Foi com ele que entendi o sentido da incomunicabilidade em Antonioni (sessão de “A noite” na Cinemateca Paulo Amorim), que senti paixão a primeira vista com o cinema argentino (sessão de “O filho da noiva” no Unibanco Arteplex), a satisfação em assistir cada nova estreia de um filme do Eduardo Coutinho (sessão de “Jogo de Cena” na sala P.F. Gastal), o impacto emotivo ao assistir pela primeira vez “Elena” (sessão no Santander Cultural).

Lembrar com precisão as sessões que assistimos destes e tantos outros filmes colocam em evidencia como a minha paixão pelo cinema passou por estes momentos. Agora que lido com a condicão do teu falecimento, a memória vai me puxando cada vez mais para tempos distantes. É como se a memória afetiva tivesse adormecida e agora despertasse com toda força para dizer o quanto esses momentos foram determinantes para mim. “Rafael, como não falar de cinema se é uma maneira de saber quem sou. Espero que contigo seja o mesmo, pois é um mundo maravilhoso”, escreveu ele na primeira página de “A palavra náufraga”, livro que me deu de presente no Natal de 2001, composto de textos do crítico de cinema Antonio Gonçalves Filho. “Rafael, para continuar contando e criando histórias para o teatro, cine e outros tantos mais”, escreveu para mim no livro “Como contar um conto”, de Gabriel García Marquez, que me presenteou no meu aniversário em outubro de 2002. Isso sem falar de Brecht, Strindberg, Ibsen, Tchekhov, cada livro que ele me emprestava abria um novo mundo para mim.

Foto: retrato Breno, no Anfiteatro, em frente ao rio Guaíba, Porto Alegre.

Com o tempo, estes encontros ganhavam todo um outro tempero a medida que ia conhecendo sua trajetória pelo cinema e pelo teatro gaúcho. Breno teve uma das trajetórias mais curiosas que pude conhecer até aqui. Como conciliar um oficial do exército e um ator numa mesma pessoa? Sim, ele conseguiu! Durante trinta anos trabalhou como datiloscopista no Exército. Breno era perito em reconhecimento e classificação de impressões digitais. Ele entendia bem a importância que o exército teve na sua vida, a oportunidade que lhe deu tanto para sair da sua terra natal Venâncio Aires e vir para a capital Porto Alegre, como para construir uma vida que lhe deu estabilidade. Como trabalhava desde os onze anos de idade para ajudar nas economias da casa (seu pai faleceu quando ele tinha somente quatro anos de idade), o tema financeiro sempre foi uma fonte de preocupação e que determinou sua trajetória (quando garoto, tudo o que ganhava dava para a sua mãe). Breno sempre falava de um tema em particular que o divertia nesse período no exército: os cafés que tomava nos intervalos com Volnyr Santos, que também trabalhava no exército e que anos depois construiu uma exitosa carreira acadêmica na literatura. Como bons amantes das artes, ambos encontraram suas liberdades poéticas em meio a rigidez dos coturnos e dos uniformes de trabalho.

Mas o que sempre curti foi escutar as suas histórias como ator no teatro e no cinema gaúcho. Formado em artes dramáticas no DAD/UFRGS e posteriormente em jornalismo pela PUCRS, ele trabalhou ao longo dos anos 70 e 80 em momentos importantes do teatro gaúcho, em peças como “O inspetor geral”(1978) e “Antígona” (1979), ambas dirigidas por Luiz Paulo Vasconcellos, “Inimigos de classe” (dir. Luciano Alabarse), “A maldição do Vale Negro” (1988, dir. Luiz Artur Nunes), “Merlin ou a Terra Deserta” (1985), entre outros. No cinema foi muito atuante em trabalhos da nova geração de cineastas porto-alegrenses que surgiram nos anos 80. Cada vez que o curta metragem “Temporal” – debut cinematográfico de Jorge Furtado e José Pedro Goulart -, aparecia nas nossas rodas de conversa, Breno abria um largo sorriso ao lembrar do grito de guerra do seu personagem: “Latinidade! Latinidade!”. Sua voz poderosa e o bigodón “a la Olivio Dutra” conferiam traços marcantes aos personagens que interpretou, em filmes como “Me beija” (dir. Werner Schünemann, 1984), “Verdes anos” (dir. Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil, 1984), “O gato” (dir. Saturnino Rocha, 1988), “Bola de fogo” (dir. Marta Biavaschi, 1997), entre outros.

Frame do filme “Temporal” (dir. Jorge Furtado, José Pedro Goulart, 1984)

Quando o conheci, Breno já vivia um outro momento na sua trajetória. Mais afastado dos trabalhos no cinema e no teatro, ele me apresentou um outro ofício artístico: Contador de Histórias. Como ele comentava, sentia estar desfrutando como nunca antes os trabalhos que surgiram graças a um convite para atividades no EJA (Educação de Jovens e Adultos), modalidade de ensino voltada para quem não concluiu ou não teve acesso à escola na infância e na adolescência e que permitia a retomada dos estudos, desde a alfabetização básica até a conclusão do Ensino Fundamental e Médio. Breno me comentou muitas vezes que uma das maiores emoções da sua carreira foi realizar leituras de textos de alunos adultos que recém estavam sendo alfabetizados. Sem os holofotes dos palcos de teatro ou dos sets de filmagem, eu descobria nele algo que me marcou profundamente: a sua generosidade.

Os convites que recebia para fazer leituras eram contínuos, em diferentes lugares, projetos e parcerias, como foi o caso dos trabalhos apresentados em conjunto com o músico Johann Alex de Souza e a atriz Leonor Cabral de Melo. Em alguns destes projetos tive o prazer de participar também, como foi o caso da leitura dramática de trechos da novela Noite, de Érico Veríssimo, no Auditório do Mercado Público, como parte do projeto “Noite na Taverna”, que visava divulgar textos literários relacionados a história e a cultura do Mercado e da cidade.  

Foto: Breno com Johann Alex, em apresentação no Acampamento Farroupilha.

Também tive a honra dele ter me convidado para dois projetos muito especiais. O primeiro foi escrever um texto em homenagem a imigração açoriana, que foi apresentado no Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, na 43ª Semana de Porto Alegre, como parte das celebrações pelos 230 Anos da cidade e 250 anos de povoamento açoriano. Ainda lembro muito bem de Johann Alex e Breno cantando neste espetáculo a canção “Os Argonautas”, de Caetano Veloso, com o refrão “Navegar é preciso / Viver não é preciso”.

Outro momento marcante foi o convite que ele me fez para escrevermos uma peça de teatro que concorreu e ganhou o prêmio PalcoHabitasul de Teatro, em 2002. A partir de uma adaptação livre do conto “Eu te amo”, de Thenio Francisco Clamer Fonseca, assumimos o desafio de criar a história de Janete, uma moça vinda do interior que “queria ganhar o premio do Correio do Povo de A mais bela comerciária do Rio Grande do Sul, mas que precisou se contentar com a faixa de Miss Simpatia”, que tinha como inspiração a Eva Perón, mas que necessitava se contentar com a condição de amante de um político influente numa sociedade machista ambientada na Porto Alegre dos anos 50. Nos dedicamos com muito carinho a este trabalho, Breno teve a linda ideia de ambientar esta história na Porto Alegre dos anos 50/60 enquanto um período de transformação na cidade e no imaginário da sociedade. Coube a mim um trabalho de resgate histórico, de idas continuas ao Museu Hipólito da Costa para resgatar recortes de imprensa daquele período. Deste trabalho resultou o Prêmio Palco Habitasul e o privilegio do espetáculo realizar a sua estreia no palco do Theatro São Pedro.

Foto: reportagem do jornal Correio do Povo, 11.07.2002.

Nossas parcerias seguiram firmes. Entramos juntos na oficina literária do escritor Charles Kiefer; escrevemos o roteiro de “Carcaças”, projeto que nunca filmamos, mas que fizemos até um trabalho de scouting e de storyboard nas ruas e dunas de areia de Balneário Pinhal; ele me ensinou a registrar imagens com máquina fotográfica analógica, fator fundamental para o meu trabalho de conclusão na disciplina de fotografia, no curso de jornalismo.

Chegando no ano de 2006, Breno e meus pais foram os grandes incentivadores para que eu fosse estudar cinema na Argentina, uma mudança de rota radical que se mostrou fundamental para minha trajetória. Foi nesse contexto que decidi convidá-lo para um projeto que marcaria profundamente nossa parceria. Comecei a elaborar o roteiro do curta metragem “Amélia &Pippo”, para um curso de direção de atores no Centro Cultural Rojas, que naquele primeiro momento não foi realizado. Breno se enganchou muito com a história de dois dançarinos que decidem retomar suas carreiras e acabam se reencontrando por acaso num casting para uma publicidade.

O resultado de Amélia & Pippo se divide em duas partes, ambos muito especiais. A primeira é a versão argentina. Graças ao Taller MS do cineasta e querido maestro José Martínez Suárez pude produzir este projeto, resultando no meu primeiro trabalho na Argentina e em muitas conquistas, como a seleção do curta em tradicionais festivais de cinema, como é o caso do Festival de Cinema de Viña del Mar (Chile) e o Festival Latinoamericano de Trieste (Itália), assim como a exibição no tradicional Cineclub Núcleo, em Buenos Aires (para quem quiser assistir, repasso aqui o link do filme: https://youtu.be/jFJklSuIMnk).

Já na versão brasileira, o projeto contou com a parceria da produtora Accorde Filmes de Paulo Nascimento e ficou entre os dez projetos selecionados do saudoso Histórias Curtas, da RBSTV. Na versão brasileira tive a grande alegria de pela primeira vez dirigir ao Breno, assim como a querida atriz Araci Esteves. Lembro até hoje da alegria dos encontros entre nós três, de como fomos criando um belo ambiente de trabalho entre cafés e bolos de laranja e de como esse trabalho rendeu um merecido reconhecimento ao Breno. Sem ele não existiria Pippo, Amélia, festivais de cinema, Histórias Curtas. Sem a sua experiência de vida, de contar histórias, de entender com profundidade as emoções e psicologias destes personagens, o projeto não alcançaria o que alcançou. Amelia & Pippo evidenciou a solidez da nossa amizade, da nossa parceria, das nossas afinidades (para quem quiser assistir, repasso aqui o link do filme: https://youtu.be/0F4EYsimbs0).

Ainda me lembro das muitas tardes que trabalhamos o roteiro na sua casa e o ajudei a memorizar seus diálogos, pois ele se sentia um pouco pressionado frente a um roteiro com muitas falas e a um cronograma muito ajustado de gravação. Durante as filmagens, Breno não falhou uma única vez, esteve sempre a postos e com o texto na ponta da língua. Esse desafio foi também uma vitória pessoal dele, comprovando a si próprio que sua habilidade em memorizar textos e interpretá-los com emoção seguia intacta, aos 73 anos de idade.

Frame do filme Amélia & Pippo (dir. Rafael Valles, 2010).

Eu poderia seguir falando muito mais sobre ele, sobre as lindas viagens que compartilhamos mundo afora, sobre as muitas visitas dele a BSAS e nossas sessões continuas no BAFICI (festival de cinema independente de Buenos Aires), sobre os lindos encontros entre amigos no Armazém da Esquina nos happy hours, sobre como ele se tornou uma parte fundamental da minha família e do que sou hoje… A imagem mais marcante que tenho dessa amizade é como a sua energia positiva, seu poder motivador, seu carisma levaram um jovem cabeludo, com piercing no nariz, cheio de espinha na cara e muito tímido, vindo da serra gaúcha e cuja rotina era estudar jornalismo na faculdade e trabalhar na loja de vinho e produtos coloniais dos pais, a querer sonhar. Breno me mostrou que os sonhos são para serem realizados, para serem buscados.

Foto: Lançamento do meu livro “Ensaio sobre o Grito” (Feira do Livro de Porto Alegre, 2021)

Como toda amizade que se preze, vivemos momentos difíceis, desafiadores, mas sobretudo, celebro hoje os momentos gratificantes, especiais. Atravessamos mais de duas décadas com muitas histórias por contar, com lembrancas que ficarão guardadas com carinho na memória. Como, por exemplo, o nosso último encontro presencial, quando fui até a sua casa para mostrar o filme que realizei, “Mario Arregui & Sergio Faraco – amizade sem fronteiras”. Ele ficou feliz, eu fiquei feliz. João Breno Ruschel está presente neste filme, como em todos os outros trabalhos que realizei até aqui e os que ainda virão. Se ainda sigo sonhando, contando histórias, é porque aquela chama que foi acesa por ele segue firme e forte.   

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